Conheça a história de empreendedorismo, capacitação e sucessão no campo do jovem campeão do Cup of Excellence 2020

09/12/2020 19:14 Paulo André Notícias

O maior valor pago por uma saca de café no Brasil foi registrado há dois anos, equivalente a R$ 73 mil por cada unidade de 60 kg do produto cultivado na Fazenda Primavera, em Angelândia, região da Chapada de Minas Gerais, que foi o vencedor do Cup of Excellence – Brazil 2018, principal concurso de qualidade para grãos especiais do mundo, realizado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a Alliance for Coffee Excellence (ACE).

A busca pela quebra desse recorde se renova a cada edição anual da competição. Em 2020, os 30 vencedores do concurso serão ofertados na quinta-feira, 10 de dezembro, a partir das 11h, através de plataforma on-line, e um dos candidatos a comercializar seu café por preços bem superiores ao mercado convencional é o atual e mais jovem campeão do Cup of Excellence no Brasil, Luiz Ricardo Bozzi Pimenta de Sousa, aos 20 anos.

Apesar de a cafeicultura vir desde o berço em sua vida, esse café campeão poderia nunca ter surgido, já que o pai, José Luiz Pimenta, desejava outros caminhos a seus filhos, sugerindo que outra profissão poderia ser melhor para Luiz Ricardo e seu irmão Luiz Henrique Bozzi Pimenta de Sousa, quatro anos mais velho.

“Nosso pai realmente não queria que a gente permanecesse na propriedade, porque ele não desejava para nós o enfrentamento de todas as dificuldades e desafios quando se trabalha com a cafeicultura, quando se é agricultor. Ele entendia que poderíamos buscar carreira como médico, advogado ou veterinário”, conta Luiz Ricardo.

Mas o ingresso do irmão, em 2010, no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus de Venda Nova do Imigrante (ES), terra natal dos Pimenta, mudou completamente o futuro da família.

“No Ifes, Luiz Henrique teve contato com o professor Lucas Louzada, que começou a transmitir muitos conhecimentos sobre cafeicultura, provas de degustação, a questão da qualidade e dos cafés especiais. Isso fez com que ele começasse a se apaixonar pelo ramo e despertasse um interesse muito grande pela atividade”, conta o irmão.

Já Luiz Ricardo fez curso técnico em agropecuária, o que despertou sua paixão por plantas, cultivares e solo. “Na escola, seguimos um princípio agricultura orgânica, sustentabilidade, agroecologia. Isso fez com que eu me apaixonasse pelo setor e quisesse trazer algo diferente e melhor para dentro da propriedade. Foi através desse entusiasmo que começamos o desenvolvimento dos nossos cafés”, explica.

VISÃO EMPREENDEDORA
O professor do Ifes, Aldemar Polonini Moreli, destaca o papel motivador da academia voltado para que esses estudantes sejam empreendedores e não empregados, o que os fez entender que constituir seu próprio negócio, investir nele, no avanço tecnológico, na lacuna aberta da produção de cafés especiais é um fator preponderante.

“Todos esses jovens são filhos de produtores daquele formato antigo. À medida que tiveram oportunidades, enxergaram que conseguiriam, empregando tecnologias, com mão de obra familiar e patrimônio que a família já possui, alavancar o negócio estando no campo. E o desenvolvimento do café na propriedade tornou-se sensível à medida que viram que, se levar tecnologia, obtêm excelentes resultados, porque o fator produção já existe”, aponta.

Alinhado a esse ingresso dos irmãos, soma-se o histórico cafeeiro do pai e de seus tios, que, em 1998, após um trabalho desenvolvido pela então Cooperativa Pronova, com monitoramento do hoje deputado federal Evair de Melo, entusiasmaram-se com a questão da qualidade e passaram a conseguir melhores preços por seus cafés.

“Esse foi um passo importante em nossa história, porque, até então, na região, nossos cafés eram dados como ‘simplesmente rio’, não existia o conceito de que conseguiríamos fazer cafés estritamente moles, especiais. Eles introduziram o descascador na propriedade, em 2003, fizeram um grande trabalho, mas, infelizmente, não tiveram tanto êxito na questão da qualidade. Chegaram a cafés considerados duros e dependiam muito de como o comércio local classificava o produto; desafios e dificuldades que justifica meu pai ter pensado em outro futuro a nós”, recorda Luiz Ricardo.

De volta ao presente, a chama dos cafés especiais reacendeu com o desenvolvimento de Luiz Henrique, que se qualificou com os conhecimentos absorvidos no Ifes. “Ele teve acesso a inovações tecnológicas, abriu novos horizontes e voltamos a despertar para a cafeicultura com maior valorização. Como tínhamos conhecimento e passamos a nos deparar com a chegada de novas tecnologias, com o suporte dos professores do Ifes conseguimos um desenvolvimento muito rápido nesse sentido”, comenta o irmão.

Luiz Henrique revela que passaram a fazer investimentos na qualidade do solo, tratando-o como um canteiro vivo. “Buscamos avançar mais na lavoura, na nutrição, na questão da qualidade do solo”, conta. “Investimos desde o plantio, o manejo do solo, porque não é possível produzir um café especial se não tem um cuidado especial com seu solo, com sua planta”, completa o irmão.

Ambos destacam que também aprimoraram o processo de pós-colheita, fazendo descascamento dos cafés e investindo em infraestrutura para secagem e armazenamento. “Adquirimos conhecimento e confiança no processo que realizamos, desde coisas básicas, que começaram a dar muito resultado”, fala Luiz Ricardo.

CAPACITAÇÃO
Toda a evolução no processo produtivo também contou com a ajuda da Associação Brasileira de Cafés Especiais, onde Luiz Henrique se formou como Q-Grader, provador de café qualificado, controlado e profissionalmente treinado pelo Coffee Quality Institute (CQI).

“O curso de Q-Grader da BSCA foi muito importante porque a gente saiu do achismo. Antes, levávamos a amostra aos corretores e eles davam sua opinião, sem que pudéssemos contestar. A partir do momento que fiz o curso, consegui entender o que a gente estava produzindo, aonde poderíamos chegar, quais mercados a gente poderia buscar, isso teve um impacto muito grande, porque sabendo o que se está produzindo, também se sabe onde investir para otimizar a qualidade, melhorar os processos, ver qual se adapta melhor à nossa região, qual empregar em cada safra e qual o melhor resultado. Todo começo de safra fazemos uma triagem e foi assim que chegamos ao café campeão do Cup of Excellence”, explica o mais velho.

A história de qualificação dele no café também cruza o caminho da BSCA em outras ocasiões. “Tive a oportunidade de ser juiz do Cup of Excellence por duas vezes. Em uma delas, em 2017, tive o orgulho de fazer parte da equipe de apoio em Venda Nova (do Imigrante), na nossa cidade, e foi assim que vi cafés de elevado padrão e passei a almejar esse know how que muitos produtores têm e lutam para manter na produção de cafés de excelência”, recorda.

Lucas Louzada, professor do Ifes e responsável pelo direcionamento de Luiz Henrique ao nicho de cafés especiais, celebra o resultado alcançado pelo aluno e seu irmão. “Para nós, é uma alegria imensa ver o que foi aplicado na sala de aula e nos laboratórios refletir na vida destes egressos, jovens que receberam formação acadêmica e estão conseguindo empreender, ousar e realizar coisas grandes com a produção de cafés especiais”, comemora.

Para ele, o campus de Venda Nova do Imigrante do Ifes se transformou em um grande celeiro de formação de provadores de cafés especiais e capacitador de jovens produtores. “Acredito que o conceito de laboratório ‘portas abertas’ é o diferencial. Todos são bem-vindos, os produtores são atendidos por nossos alunos, que são treinados e ficam sob supervisão dos professores, caso seja necessária alguma intervenção técnica. Os alunos possuem um ambiente inovador, empreendedor e que possibilita a integração com a comunidade”, revela.

O professor Moreli também salienta o fato de esses jovens se constituírem exemplos de sucessão familiar bem sucedida. “Através dos treinamentos dados com cursos de cafés especiais, temos conseguido levar para o campo, à unidade produtiva, aquilo que é o maior paradigma da geração de tecnologia. A academia a gera, mas a extensão tem dificuldade em empregar. Porém, através desses treinamentos que desenvolvemos, conseguimos trazer pai e filho e a melhor absorção por parte dos jovens tem alavancado o campo”, pontua.

O CAFÉ CAMPEÃO
Dotados do conhecimento adquirido, os irmãos, a cada safra, realizam a classificação de seus cafés, sendo especiais ou não. Para o Cup of Excellence, eles contavam com 60 lotes provados, a partir dos quais, selecionaram os 10 principais e afunilaram até chegar aos melhores cinco, que “blendaram” para preparar a amostra inscrita no concurso.

“Esse café que ‘blendamos’ contem notas com alto teor de melaço, leve direcionamento de sabor para capim-limão, cítrico e também notas de mel. Quando agrupamos isso, essas nuances ficaram muito nítidas, o café ficou muito balanceado e não existia adstringência, ficou um café com um potencial muito alto, o que fez com que a gente acreditasse em uma conquista futura com esse lote, preparado especificamente para o Cup of Excellence, que acabou campeão”, descreve Luiz Ricardo.

EXEMPLO TANGÍVEL
Com a conquista, os jovens irmãos querem servir de exemplo e inspiração a juventude e aos agricultores familiares locais. “A gente espera entusiasmar de forma geral os jovens e os pequenos cafeicultores da nossa região, pois nosso resultado prova que é possível, sim, produzir pouco e com grande qualidade; que é possível, sim, superar os desafios, pois quebramos o tabu de que, em nossa cidade, não conseguiríamos produzir cafés especiais”, salienta o irmão mais novo.

Luiz Henrique espera que a conquista inspire jovens e agricultores familiares a seguirem o caminho da qualificação. “Café especial é um caminho sem volta, com rentabilidade muito grande. E não é só questão de preço, mas também de qualidade de vida, pois quando se trata o solo com mais carinho, quando há mais respeito com a natureza, nos tornamos seres humanos melhores e passamos a ter melhores produções. Tudo isso foi o que aprendi no Ifes e na BSCA, que foi um divisor de águas para a gente sempre estar motivado a investir mais em qualidade e no bem estar das lavouras e no nosso bem estar, o que é refletido na qualidade final”, completa.

CONTRIBUIÇÃO COM SEU ENTORNO
O professor Moreli diz que os irmãos e uma turma de jovens qualificados pela instituição possuem uma ímpar vocação para contribuir com as pessoas de seu entorno. “Eles focam o desenvolvimento da comunidade como um todo, irradiam esse espírito à sociedade local e estimulam que se capacitem e avancem na produção de cafés especiais, irradiando aos produtores os caminhos a percorrer e a quem procurar”, elogia.